Papado de Bento 16 é menos peregrino e mais polêmico que o de João Paulo 2º


O papado de Bento 16 começou em 24 de abril de 2005 sob muitas dúvidas por conta de sua atuação na Congregação da Doutrina da Fé, que dirigia desde 1981, escolhido pelo seu antecessor, o papa João Paulo 2º.
"Arquiteto intelectual" e "ghost writer" por trás de Wojtyla, o teólogo e cardeal alemão Joseph Ratzinger havia se celebrizado por suas posições conservadoras - dos pontos de vista dogmático e moral -, pela "mão-de-ferro" com que reprimiu a Teologia da Libertação na América Latina e pelas restrições que impunha ao diálogo inter-religioso.
POLÊMICA
Pawel Kopczynski/Reuters
O papa Bento 16 despertou a ira dos muçulmanos quando, em 12 de setembro de 2006, em"discurso"pronunciado na Universidade de Regensburg, na Alemanha, citou texto do imperador bizantino Manoel 2º Paleólogo, no qual o autor diz que o profeta Maomé trouxe de novo ao mundo "coisas más e desumanas, como a sua ordem para espalhar pela espada a fé que ele pregava".

Quatro dias depois da declaração, o Vaticano divulgou comunicado em que o papa lamentava-se pelo fato de suas declarações terem sido mal interpretadas. O documento dizia que Bento 16 confirmava "seu respeito e estima por aqueles que professam a fé islâmica" e esperava que suas declarações fossem entendidas "em seu verdadeiro sentido". Dizia ainda que era apenas uma citação, e que as palavras não deveriam ter sido consideradas como suas. Não se tratava, no entanto, de um pedido de desculpas. E, nas três vezes posteriores em que se referiu ao caso, também não se desculpou.

A declaração gerou uma série de protestos de rua em países com populações muçulmanas e criou uma expectativa para a viagem que o papa faria à Turquia em novembro daquele ano. Em 26 de novembro, véspera da chegada de Bento 16 à Turquia, cerca de 20 mil pessoas tomaram as ruas de Istambul em um protesto contra a visita papal. Na Turquia, o papa pediu liberdade religiosa para a minoria de 30 mil católicos do país (entre cerca de 73 milhões de habitantes) e, num gesto simbólico e surpreendente, rezou na mesquita Azul, ajoelhado e voltado para Meca.
Apelidado de "Guardião do Dogma" e de "Panzerkardinal" (tanque de batina, em alemão), ele combateu em seus escritos a idéia do sacerdócio feminino, condenou a homossexualidade, colocou-se contra a comunhão dos divorciados que voltassem a se casar e impediu o crescimento do laicismo dentro da Igreja.
Nos anos 90, publicou o documento "Dominus Iesus", que exaltava a superioridade da Igreja Católica como "guardiã da plenitude e da pureza da fé com respeito às demais igrejas cristãs". A publicação estremeceu as relações ecumênicas.
Portanto, era de se esperar um papado "ortodoxo", "conservador" e um aprofundamento da linha de João Paulo 2º, apesar das diferenças de estilo entre os dois.
Alguns analistas disseram que a idade avançada de Ratzinger (78 anos à época da eleição) poderia indicar um "mandato-tampão", um papado de transição em que não seriam realizadas mudanças significativas.
Já os conhecedores da personalidade do novo papa sugeriram que ele, refinado intelectual e pessoa de trato delicado, poderia surpreender, criando pontes para o diálogo entre a fé e a razão e procurando reaproximar a Igreja Católica de sua essência.
Missa
Na missa solene para 400 mil pessoas que inaugurou seu pontificado, Bento 16 deu sinais conciliadores. Disse que não pretendia "fazer suas vontades" nem "seguir suas próprias idéias", preferindo "ouvir a palavra e a vontade do Senhor e ser conduzido por Ele".
Ele comprometeu-se a seguir os princípios do Concílio Vaticano 2º, a promover a unidade dos cristãos e a trabalhar pela paz mundial.
Ao mesmo tempo, suas primeiras medidas em relação à burocracia do Vaticano indicavam continuidade. Confirmou Angelo Sodano no cargo de secretário de Estado, cargo que já ocupava desde 1990. Seus dois principais colaboradores, o substituto da secretaria de Estado, Leonardo Sandri, e o atual secretário para as Relações com os Estados, o chanceler do Vaticano, Giovanni Lajolo, também foram mantidos nos cargos, assim como o resto da Cúria romana, considerada o governo central da igreja.
Em 29 de maio de 2005, Bento 16 visitou a cidade italiana de Bari, onde falou a favor do ecumenismo, surpreendendo seus críticos. Ele deu outros passos nessa direção, ao abandonar o título de "patriarca do Ocidente".
Em agosto de 2005, para a 20ª Jornada Mundial da Juventude, o papa viajou a sua cidade natal, Heimat. No dia 31 daquele mês, aprovou documento em que afirma que a igreja "não poderá admitir no seminário e nas ordens sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais enraizadas ou apóiam o que se chama de 'cultura gay'".
Sua primeira encíclica, "Deus caritas est" (Deus É Amor), foi publicada em 25 de dezembro de 2005. A inovação ficou por conta da perspectiva com que o papa interpretou a sexualidade ligada ao erotismo e ao desejo do amor humano, como parábola do amor divino, uma concepção inédita em termos de Igreja Católica. Mas isso não significou condescendência com o casamento gay ou com qualquer mudança de postura em relação ao uso de preservativos e de métodos anticoncepcionais.
Em 24 de março de 2006, o papa nomeou 15 cardeais, entre os quais o arcebispo de Hong Kong, Joseph Zen Ze Kiun. A escolha fez parte de uma estratégia para estabelecer laços com a China, o que indicaria a possibilidade de um futuro papa chinês. Nenhum brasileiro foi nomeado à época.
Em outubro de 2006, o papa escolheu o cardeal brasileiro dom Claudio Hummes prefeito da Congregação para o Clero, cargo responsável pela administração da formação intelectual permanente do clero e da formação religiosa dos fiéis, pela sugestão de causas de beatificação e canonização, pela concessão de dispensas do sacerdócio e pela administração de bens eclesiásticos. Com a nomeação, dom Cláudio deixou a Arquidiocese de São Paulo, para a qual dom Odilo Pedro Scherer só seria indicado em 21 de março de 2007.
A nomeação de dom Claudio foi vista por especialistas em Igreja Católica como um sinal de que o Vaticano quer se reaproximar da igreja brasileira, após uma fase marcada pelo combate à Teologia da Libertação, que teve no Brasil um de seus principais pólos.
Em setembro de 2006, o papa provocou polêmica quando, citando texto do imperador bizantino Manoel 2º Paleólogo, fez o que foi interpretado como "crítica indireta" ao profeta Maomé e ao islamismo. As declarações, das quais o Vaticano retratou-se, foram o estopim de uma série de protestos contra o papa em países muçulmanos.
Em 2007, divulgou a exortação apostólica "Sacramentus caritatis", que rege a celebração de missas, e reforçou sua face conservadora. No texto, reafirma a posição da Igreja sobre o celibato, o matrimônio entre homossexuais e a comunhão de divorciados, e diz que o segundo casamento é uma "praga social", termo que provocou polêmica em todo o mundo.
Entre as alterações na missa, o papa propôs o maior uso do latim e dos cantos gregorianos, pedindo que não fossem utilizados gêneros musicais que desrespeitem o sentido da liturgia.
"É necessário que se valorize adequadamente o canto gregoriano como próprio da liturgia romana. É necessário evitar a improvisação genérica ou a introdução de gêneros musicais que não respeitem o sentido da liturgia", diz o documento. Com relação à homilia, sermão feito pelo sacerdote no decorrer da missa após a leitura dos Testamentos, Bento 16 pede que se evitem temas genéricos ou abstratos.
Enfim, após dois anos de um papado muito menos "midiático" e muito mais polêmico que o de João Paulo 2º, Bento 16 mostra que não cede em relação a temas dogmáticos e morais, e dá sinais contraditórios em relação ao diálogo ecumênico.

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